O código QR como material
Um quadrado a preto e branco numa parede é uma porta. Ainda assim tem de abrir. Isto é o que aprendemos a fabricar os nossos e a sair para os ler.
Uma ligação física
Um código QR não contém uma página: contém um endereço. É um texto curto, codificado em quadrados pretos, que uma câmara sabe reler. Mais nada.
É isso que faz dele um material interessante para a rua. Colado numa parede, uma ligação torna-se um objeto que só se encontra ao passar à frente — um endereço que existe num ponto concreto do mundo. Não se procura, tropeça-se nele.
E não há nada para instalar. Há alguns anos que a câmara de todos os telemóveis lê códigos QR de forma nativa. Uma aplicação dedicada deixou de fazer sentido, e é isso que torna um código numa parede utilizável por qualquer pessoa.
O contraste manda mais do que a cor
É o erro que todos cometemos ao início: pegar na cor da marca e transformá-la num código QR. A nossa é um violeta, #7f22fe. No papel fica bem. Para um leitor fica ilegível assim que a luz baixa.
Um leitor de QR não vê cores, vê claro e escuro. O que conta é a diferença de luminância entre os quadrados e o fundo, não o tom. Um violeta médio sobre branco tem contraste aceitável em pleno dia e catastrófico sob um candeeiro de rua.
Os nossos stickers usam por isso um violeta quase preto, #1e1b2e, sobre branco. É o neutro da nossa identidade, não o seu destaque. A cor da marca está noutro sítio do sticker, nunca nos quadrados.
A regra prática: na dúvida, mais escuro. Um código que se lê de noite também se lê de dia; ao contrário não.
A correção de erros, e o logótipo ao centro
Um código QR traz redundância: parte dos quadrados existe só para reconstruir a informação se o resto for danificado. Há quatro níveis, do mais leve ao mais robusto, e o mais robusto tolera que cerca de trinta por cento do código seja destruído.
É isso que permite pôr um logótipo no meio. O logótipo tapa quadrados, e a correção de erros reconstrói-os. Não é magia: é orçamento a ser gasto.
Os nossos códigos estão no nível Q, que tolera perder cerca de um quarto. É o que deixa espaço para o ponto de interrogação ao centro e ainda guarda margem para o que acontecerá ao sticker lá fora — um risco, um canto levantado, um pingo de tinta.
Subir para o nível máximo tem um custo: o código fica mais denso, logo os seus quadrados ficam mais pequenos ao mesmo tamanho, logo custa mais lê-lo de longe. Mais robusto não quer dizer mais legível.
A margem branca não é decoração
Um código QR precisa de uma zona de silêncio à volta: uma faixa vazia que permite ao leitor encontrar onde o código começa e onde acaba. Sem ela, um código posto contra um padrão carregado fica invisível para a câmara.
Essa margem pode vir do próprio código ou do suporte. Nos nossos stickers é o branco do sticker que a dá: o quadrado impresso vai até ao limite da zona escura, e o papel faz o resto.
O que significa que um sticker recortado, aparado ou colado em cima de uma aresta perde a sua zona de silêncio, e com ela a legibilidade.
O tamanho, conforme a distância de leitura
A regra prática do ofício é simples: a largura do código deve ser cerca de um décimo da distância a que o queres ler. Um código de cinco centímetros lê-se à vontade a cinquenta centímetros, com dificuldade a um metro, e nada do outro lado da rua.
Os nossos stickers têm cinco centímetros de lado. Não é acaso: são feitos para serem lidos por quem pára e se chega, não por quem passa de carro. O código de colagem diz «à altura da mão», e é a mesma limitação vista do outro lado.
Um código colocado mais alto tem de ser maior, na mesma proporção. Um código de cinco centímetros a três metros do chão nunca será lido por ninguém.
O que estraga um código na rua
O reflexo. Um sticker envernizado ou plastificado, virado para uma fonte de luz, devolve um brilho que cega a câmara numa zona inteira. Um acabamento mate lê-se melhor do que um brilhante, sempre.
A curvatura. Um código colado num poste ou numa superfície bombeada deforma-se, e o leitor deixa de encontrar a sua grelha. Uma curva ligeira passa, um tubo fino não.
O ângulo. Um código posto muito alto ou muito baixo lê-se de esguelha, o que equivale a deformá-lo. Os leitores corrigem a perspetiva um pouco, não muito.
O tempo. O sol desbota, a chuva descola as bordas, o pó apaga o contraste. Um sticker de seis meses lê-se pior do que um novo, e é normal.
O que aprendemos a colar os nossos
Um código ilegível não avisa que é ilegível. Simplesmente não acontece nada, e a pessoa guarda o telemóvel a pensar que o projeto está avariado. É a pior das falhas, porque é silenciosa.
Por isso testamos antes de colar: tirar o telemóvel, ler o sticker ainda na folha, e depois lê-lo já colado. Trinta segundos que evitam deixar um quadrado morto numa parede durante meses.
E testamos com a luz do sítio. Um código perfeito numa cozinha pode falhar numa passagem escura. É aí que se descobre que um violeta de marca era má ideia.
Porque funciona como arte urbana
Um código QR não anuncia nada. Não tem título, nem pré-visualização, nem miniatura. Não se sabe o que está por trás enquanto não se lê, e é exatamente isso que dá vontade.
É também uma das raras formas de arte urbana que não estraga nada. Um quadrado de papel de cinco centímetros, num suporte autorizado, sai sem deixar rasto. A obra está noutro lado: está no que se abre.
No nosso caso, o que se abre é uma página sem dono, e quem a lê primeiro decide no que ela se torna. O código é só a porta.